domingo, 4 de janeiro de 2009

Mãe Velha e o Rio



Mãe velha já não sonha
Dizem o sonho dela
Fugiu pela janela
Foi morar noutro lugar

Pelo rio acima
Faz dias, se foi Antão
Longe da vista
Perto no coração

Atrás de não-sabe-o-quê
Pelos meios do mato
Se foi o rebento ingrato
Um adeus não soltou

Mãe, mais não é
Sem filho para criar
Que amores foi atracar
Em moça de muitos encantos

Ele com ela se foi
No longe despedindo o olhar
E a subir olharam o chão
Mãe nele se fazendo pequena
Seus medos chorando que não
Sua voz se embalando em canção
Que chama baixinho...
Antão, então,... volta não?

Avistada quase nunca
Mãe se foi abandonando
Visitas todas recusando
Esperança nela não morava

Sofrendo por trás das noites
Conforto só encontrava
Nas vezes que se banhava
No leito do rio

Mãezinha se derramava
Parecia a correnteza
Levava a dor e a tristeza
Rio abaixo, para ver o mar

Aos poucos tristeza abalava
E no lugar deixava
Sementinha de sonho
E graça nova no gesto

Nestes dias, caricia o ventre
Redondo de lua cheia
Dizem foi o rio
Quem lhe pôs esse filho
Que cedo, cedo vai nascer.

(uma brincadeira´que escrevi em 1995, em jeito de homenagem a um dos meus autores favoritos... também biólogo, também Moçambicano, Mia Couto)

(Pintura de Gerrit Roon)

Sem comentários: