segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Coração Habitado


Aqui estão as mãos
São os mais belos sinais da terra
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de Deus,
- eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.


Eugénio de Andrade

2 comentários:

Banalidades disse...

Esta é a poesia genuína, do nascer do ser, do nascer do dia, do nascer da vida!
As palavras de Eugénio de Andrade trazem semppre a frescura para a alma de qualquer um!
Jinhos.

Mariana disse...

Visitei o teu blog e..
Nada me surge que não sejam estas palavras: és lindíssima.

Continua, being.