quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Inteligência Espiritual

Estamos mais perto de Deus quando fazemos perguntas, do que quando pensamos que temos as respostas.
Abraham Heschel
Descobri-o na véspera de Natal e de imediato o agarrei. Na capa estava escrita uma expressão que eu senti necessidade de começar a usar, desde há uns anos para cá, e que nunca tinha visto escrita em lado nenhum.
Foi-me particularmente impressionante descobrir que alguém, noutro continente, publicou um livro para apresentar este conceito que me é tão especial:
Inteligência Espiritual, edição da Sinais de Fogo.



Adorei ler esta dupla de autores, por acaso (ou não) um casal de cientistas, que acumula especializações em física, filosofia, psiquiatria, psicoterapia e gestão estratégica.

Danah Zohar e Ian Marshal apresentam-nos, nesta obra, o conceito de Inteligência Espiritual (QEs), que se segue aos conceitos anteriormente introduzidos, o bem conhecido “QI” – Quociente de Inteligência Intelectual, no princípio do Século XX e mais recentemente o QE – Quociente de Inteligência Emocional, popularizado na década de 90 por Daniel Goleman.


No livro começam por ser analisados os três tipos de inteligência (QI, QE, QEs), associados a três processos de pensamento (primário, secundário, terciário), produzidos por três estruturas diferentes, existentes no cérebro humano (redes neurais em série, associativa e unificadora).
A inteligência intelectual é de natureza lógica e racional, e permite-nos resolver problemas estratégicos, enquanto que a inteligência emocional é de natureza adaptativa, relativa aos sentimentos, e traduz a nossa capacidade de compreender uma situação do ponto de vista emocional e de nos comportarmos adequadamente face à mesma.
A inteligência Espiritual é uma inteligência transformativa, criativa, que nos coloca em novas perspectivas geradoras de um sentido maior e inspirador. É a inteligência da nossa própria consciência, que nos guia como uma bússola no limiar entre a ordem e o caos, a fronteira entre a zona de conforto e o total desconhecido. Permite-nos quebrar velhos paradigmas e padrões de pensamento e criar novos modelos de interpretação da realidade que têm o poder de influenciar as nossas decisões e acções.
Zohar e Marshall defendem que poderemos ter inteligências infinitas, mas sempre ligadas a um dos três sistemas básicos do cérebro, e que os sete tipos de inteligência descritos por Howard Gardner, na sua teoria das Múltiplas Inteligências, são na verdade variações destes três tipos básicos e a sua combinação neural associada.
A inteligência espiritual é assim defendida como a inteligência suprema, uma função integradora de toda a inteligência humana, necessária para o funcionamento eficaz dos vários processos neurais, e que define em essência o que é ser humano. Como seres humanos, estamos a usar a nossa inteligência espiritual, quando formulamos perguntas “fundamentais” ou “essenciais”, como: Porque é que realmente existo? O que é que estou aqui a fazer? O que faz com que tudo valha a pena? Quando tentamos responder a estas questões estamos a entrar na dimensão criativa do ser humano.
A inteligência espiritual é, assim, a nossa capacidade de encontrar sentido, visão, valores e propósito fundamental e de usar estas qualidades para a gestão sustentável da própria felicidade. Esta dimensão espiritual da inteligência não tem nenhuma conotação religiosa, mas está, sim, relacionada com aquilo a que se pode chamar a nossa essência vital, o significado original de espírito, do latim spiritus (princípio animador ou sopro vital). Os autores consideram-na aliás “a inteligência da alma” e reconhecem que encerra um enorme potencial de auto-cura, na medida em que permite manter a fluir, a visão e a energia no canal entre o mundo interior e exterior, num estado de inteireza centrada.
O livro prossegue analisando as evidências científicas que suportam a existência desta inteligência “do sentido”, um novo modelo do “Eu”, uma análise dos vários tipos de personalidade, as suas motivações profundas, a sua energia psíquica e a forma como acedem ao centro comum, o centro pessoal que é uno com o coração do universo, que assenta em toda a potencialidade infinita do vazio quântico. Actuando a partir desse centro, cada um de nós pode viver o seu próprio caminho espiritualmente inteligente.
Finalmente, os autores explicam como podemos avaliar, utilizar e desenvolver a nossa inteligência espiritual, numa cultura espiritualmente estúpida, onde se valoriza sobretudo o imediatismo, o materialismo e a imagem externa. Uma cultura massificada e vitimista onde predomina o egoísmo e não a verdadeira individualidade. Sob estas pressões, para evitar o atrofiamento da nossa inteligência espiritual há que desenvolver o auto-conhecimento, a auto-consciência e a auto-comunicação e o primeiro passo é assumir com honestidade e coragem, a responsabilidade pela própria vida.
Ser espiritualmente inteligente é mantermo-nos autênticos e abertos à experiência, renovando a nossa visão do mundo, através dos olhos da nossa criança interior.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Fazer a Diferença!


A síndrome de Asperger não está estampada na cara, mas existe, e é até bastante comum. Tal como nas outras assim designadas "perturbações do desenvolvimento" existe uma grande variedade dentro desta "constelação" Asperger e um espectro de severidade ou intensidade de expressão das características. E é por ser tantas vezes relativamente subtil, fora de determinados contextos sociais, particularmente stressantes, como por exemplo uma sala de aula, que estas crianças são ainda tão mal compreendidas, e com elas também, as suas famílias, às quais facilmente se aponta o dedo do julgamento alheio: "Não lhe sabe dar educação"!

A este respeito, como em tantas outras matérias, a ignorância é o grande inimigo da evolução. E para isso existem associações como a APSA - Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger - que ajudam a informar e desmistificar esta forma mais funcional de autismo, mas que é um desafio enorme para os pais, professores, técnicos e todas aquelas pessoas numa comunidade que, de uma forma consciente, atenta e dedicada, lutam por uma integração eficaz destes jovens no mundo em que vivemos.

As pessoas autistas existem um pouco por todo o lado. Muitos de nós conhecerão pessoas com alguma perturbação do espectro autista, sem que tenham consciência disso. O Autismo não é uma tragédia, nem um efeito colateral da genialidade, é uma diferença a ser reconhecida e valorizada. Uma diferença necessária. É da diferença que nasce a riqueza, a criatividade, a evolução! A diferença é a cor numa tela cinzenta, é o desafio, é um motor de crescimento e maturidade e uma fonte também de um enorme sentimento de gratidão e humildade, para todos quantos conscientemente escolhem lidar com ela.

O fabuloso desafio de educar uma criança "Aspie" é simultaneamente uma gratificante experiência, sobretudo quando a partilhamos com uma "família alargada" de pais e profissionais que, movidos pela força una do amor, lutam diariamente pela felicidade destas crianças, num mundo ainda tão tristemente "deficiente" em lidar com a diferença.

A minha gratidão à APSA e às pessoas que se unem e lutam por fazer a DIFERENÇA... tão necessária!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

A Águia e o Falcão



Nas histórias e lendas de povos ancestrais, encontram-se pérolas de sabedoria intemporal, que raramente se contam na escola dos dias de hoje... lições tão simples e tão importantes...

Conta uma velha lenda dos índios Sioux, que uma vez, Touro Bravo, o mais valente e honrado de todos os jovens guerreiros, e Nuvem Azul, a filha do cacique, uma das mais formosas mulheres da tribo, chegaram de mãos dadas, até a tenda do velho feiticeiro da tribo:

- Nós amamo-nos... e vamos casar - disse o jovem.
- E amamo-nos tanto que queremos um feitiço, um conselho, ou um talismã... alguma coisa que nos garanta que poderemos ficar sempre juntos... que nos assegure que estaremos um ao lado do outro até encontrarmos a morte. Há algo que possamos fazer?
E o velho emocionado, ao vê-los tão jovens, tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse:
- Há uma coisa a ser feita, mas é uma tarefa muito difícil e de sacrifício...
Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte ao norte dessa aldeia, e apenas com uma rede e tuas mãos, deves caçar o falcão mais vigoroso do monte e trazê-lo aqui com vida, até ao terceiro dia depois da lua cheia.
E tu, Touro Bravo - continuou o feiticeiro - deves escalar a montanha do trono, e lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias, e somente com as tuas mãos e uma rede, deverás apanhá-la trazendo-a para mim, viva!
Os jovens abraçaram-se com ternura, e logo partiram para cumprir a missão recomendada... no dia estabelecido, à frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves dentro de um saco.
O velho pediu, que com cuidado as tirassem dos sacos... e viu que eram verdadeiramente formosos exemplares...
- E agora o que faremos? - perguntou o jovem - matamo-las e depois bebemos a honra de seu sangue? Ou cozinhamos e depois comemos o valor da sua carne? - propôs a jovem.
- Não! - disse o feiticeiro - Apanhem as aves e amarrem-nas entre si pelas patas com essas fitas de couro... quando as tiverem amarradas, soltem-nas, para que voem livres...
O guerreiro e a jovem fizeram o que lhes foi ordenado... e soltaram as aves...
A águia e o falcão, tentaram voar mas apenas conseguiram saltar pelo terreno. Minutos depois, irritadas pela incapacidade do voo, as aves arremessavam-se entre si, bicando-se até se magoarem.
E o velho disse então:
Jamais esqueçam o que estão a ver... este é o meu conselho. Vocês são como a águia e o falcão... se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão a arrastar-se, como também, mais cedo ou mais tarde, começarão a magoar-se um ao outro...
Se quiserem que o amor entre vocês perdure...Voem juntos, mas jamais amarrados".

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"Spiritual, not religious"

Diz-se por aí.
E eu digo aqui:
Sou espiritual, não tenho religião.
Espiritualidade rima-me com liberdade.
Religião... com escravidão.

Espiritualidade nasce sempre de dentro para fora. Não tem manual. Tem apenas o diário da minha paixão.

Religião é a domesticação da espiritualidade. Rebanhos de espíritos cercados ao entardecer, pelo pastor.
Religião é a mais primitiva industrialização, da espiritualidade.
Espiritualidade em embalagens, pronta a consumir e a competir. Cada uma traz um Deus lá dentro.
Eu descubro o que é divino, dentro de mim.
Jesus não era cristão. Era Cristo.

O meu templo está na areia dourada, lavada pelas ondas. Está na clareira do bosque, ou nos sulcos de um tronco de carvalho. Está num campo de espigas e papoilas vermelhas ao vento. O meu templo cheira a sal, ou a mato, ou ao perfume de flores.
O meu templo, encontro-o, no fundo dos olhos brilhantes dos meus filhos, inundado pelo cântico doce do seu riso.
O meu templo está sempre comigo, onde eu estiver, de portas abertas à vida. Porque ele é, tão simplesmente, o meu coração.



A minha espiritualidade é a única segurança que quero ter. A de me sentir confortável com quem sou. É a minha libertação, o céu que se sente no peito a crescer. O canto de todas as aves no meu cabelo. Amor a transbordar. Um rio transparente, cheio e fluido, que se partilha com as margens, que dança entre os seixos, que faz amor com as montanhas. Que grita nas cascatas, salta nos abismos e se renova, nas frias frestas dos rochedos. Um rio cuja força nao se contém. Pois que a felicidade é sempre aquela certeza que o mar tem, de me ver chegar.

A minha espiritualidade é a minha forma mais elevada de inteligência.
Aquela que me permite encontrar significado e sentido em tudo o que faço. Ser criativa e corajosa, perante cada desafio da vida.
É o que me inspira a ver beleza em meu redor, mesmo quando os dias não são bonitos.

A minha espiritualidade, estou a descobrir, é a minha ecologia pessoal.
É assim que o meu coração se liga ao todo.
E assim se alimenta, se sustenta e se equilibra.
Não existem Deuses nem Gurus neste meu mapa de estradas, pessoal e personalizado, para a liberdade.
Onde quer que eu esteja, estou. Inteira e incorruptível. Plenamente apreciando a viagem, aqui e agora, para sempre.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A Alquimista



A névoa desfaz-se sob o tesouro dourado do céu.

Enquanto encontro, dentro de mim, uma a uma, todas as chaves.

Mergulhei numa viagem ao fundo do mar e, no regresso, trago uma pérola a brilhar na concha do coração.

Sinto no corpo e na alma, um novo e incrível poder.
Cada célula de mim, é agora feita de uma inabalável e tranquila confiança.

Coaching é... alquimia.
Nada acrescenta, tudo transforma.
O que aconteceu?
O que mudou?
Agora tudo brilha!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Inventa o teu mundo!


O pequeno inventor que tenho cá em casa ficou há dias, entusiasmadíssimo com a história de Javier, 15 anos, educado em casa, que inventou um sistema à base de algas para satisfazer necessidades energéticas e alimentares dos países mais pobres, e pelo feito, ganhou o concurso "Invent Your World" para jovens talentos, atribuído pela Fundação Lemelson.
Brilharam os olhos ao Leo, que teve a experiência feliz de ter estado também, um ano, em Ensino Doméstico, e quer, desde sempre, ser inventor. Raro é o dia em que não desenhe um novo modelo para a sua colecção de máquinas, entre as quais se destacam os seus mega-velozes supercarros, capazes de atingir números quase infinitos de kilómetros por hora.
A velocidade é, aliás, sinónimo de felicidade para o meu filho.
Lembro-me quando, aos 4 anos, o ouvi dizer para o irmão:

Sabes que há meninos muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito ricos???!!!
E eu, que estava a ouvir, perguntei: Ah sim? E como é a vida desses meninos?
Resposta dele, em tom triste: São muito pobres...
Então porquê? - perguntei.
Resposta dele - Porque não é o dinheiro que faz velocidade!

Afinal a Felicidade não deixa de ser uma espécie de Velocidade no peito...

Mas voltando à história do Javier, ficou-me sobretudo uma sua frase, que do alto dos seus experientes 15 anos, conseguiu captar uma verdade tão elementar, aparentemente inacessível a tantos "especialistas" em educação!

"Os jovens da minha idade podiam fazer mais, mas não sabem quais são as suas paixões".

O que faz a escola de hoje para ajudar os jovens a descobrirem as suas paixões?
Quanto tempo estão as crianças ocupadas a encher o intelecto com um menu variado de "conhecimentos", totalmente alheios à sua escolha, ligados e desligados entre sucessivos toques de campaínhas?
Quanto tempo têm para se mover em liberdade, para estarem em contacto com elas próprias?
Quantas aprendem a reconhecer e usar eficientemente as preciosas ferramentas com que todos nascemos: a mente, o corpo e as emoções - as únicas que podem trazer-nos verdadeiro sucesso!
Quanto tempo passam a receber instruções e quanto se lhes permite para escutarem a sua própria voz?
Quanto tempo resta para descobrirem as paixões que as movem, aquilo que torna cada uma diferente, única e especial?
E em quantos professores conseguem as crianças reconhecer essa energia, a da paixão?
Quantos jovens adultos, bem "escolarizados", estão hoje perdidos, sem terem ainda percebido quem são, nem o que querem da vida?
Quantos descobrirão na meia-idade que já passaram metade da vida a fazer aquilo que não querem, mas não sabem ainda aquilo que querem?

A "crise" é esta e mais nenhuma. Uma crise de sentido.
As verdades são simples e estão bem à frente do nosso nariz.
Tanto tempo que perde um país, e tanto país que se perde... a ouvir mais os "Especialistas" em Educação do que os "Experientes", como o Javier.