quinta-feira, 27 de maio de 2010

Eu Consigo!





Há dias, na vinda de escola para casa, vinha numa das minhas conversas com o Leo, a propósito da resistência que ele oferece à escrita.

"Filho, preciso conversar contigo sobre o teu caderno da escola. Aquele onde tu nunca gostas de escrever...

Sabes que quando entrares na grande escola dos inventores, é importante teres um registo dos teus inventos. Não basta saber inventar grandes coisas, é preciso saber escrever o que inventaste e comunicares aos outros. Se um inventor não vender os seus inventos, não consegue ganhar a vida."

Silêncio no banco de trás.

Eu insisti - Precisas treinar a habilidade da escrita, entendes?

Mas eu não consigo... - é a resposta habitual.

Sabes Leo - disse-lhe eu - se continuares a dizer que que não consegues, é certo que não consegues. Mas se disseres que consegues, então pelo menos tens uma hipótese. Tu é que escolhes. O que é que preferes? Conseguir ou não conseguir?

Ele escutava-me, atento. Mas desesperado. Chorando. "Mas, mãe... eu NÃO CONSIGO!"

O meu filho oferece uma resistência incomum a tudo quanto o confronte com a sua própria fragilidade. Perante um novo desafio, algo fora da sua zona de conforto, sente-se derrotado antes mesmo de tentar. Na mesma medida do orgulho que sente quando me mostra um dos seus novos inventos e, minuciosamente, me descreve o seu modo de funcionamento. O Leonardo é exímio e não aceita ser menos do que isso. Tem um medo enorme de falhar. E esse medo congela-o. A sua mente é fabulosa e, no entanto, é também a sua maior adversária. A maior aprendizagem à sua frente é a de que é preciso errar para aprender. Os erros são a matéria de que é feita a experiência do inventor. Duas coisas são vitais: errar, sim, e continuar a tentar, sempre!

E aquilo em que acreditamos, torna-se aquilo que somos capazes de fazer. Os nossos pensamentos tornam-se as nossas atitudes. E as nossas palavras não só reflectem os nossos pensamentos, como também, no sentido inverso da engrenagem, têm o poder de os moldar, e assim influenciar as nossas atitudes. É esse o poder das afirmações positivas. No final de contas, cada um de nós é o único criador da sua realidade.

Ontem trouxe para casa um livro da Louise Hay, que diz na capa "EU CONSIGO". Mostrei-o ao Leo e coloquei-o na prateleira da sala, bem visível.

Expliquei-lhe que as palavras que escolhemos dizer, têm o incrível poder de se tornarem a nossa realidade. O meu filho, que é super-interessado em super-poderes, ficou atento, mas nada disse.

Hoje ao final da tarde, estava a pôr o jantar na mesa... e... surpresa, ouço o Leo, que andava de baloiço no quintal com o irmão, a gritar a altos berros:

"Eu Consigo ! EU CONSIGO! Eu sou bom nisto!"

Estava a tentar dar saltos compridos, e aterrar de pé, lançando-se a partir do baloiço.

E esta era a estratégia para conseguir dar o salto perfeito!

Claro que não perdi a oportunidade. Saí ao quintal e bati palmas, gritando também "Bravo Leo! É isso mesmo!"

Ele riu-se para mim, acabado de cair na relva... e disse "Bem.. parece-me que não está a resultar lá muito bem... O Dudu tem outra estratégia: é o 'Bip Bip Buuuu' e está a saltar melhor"... e ria-se!

"Continua a treinar filho! Estás a ter a atitude certa! Os resultados vão aparecer!"

O meu filho continuava a sorrir e voltou para o baloiço, entusiasmado.

E eu entrei em casa e olhei para o livro à minha frente, na prateleira da sala: "Eu consigo".

De vez em quando... no meio dos dias de uma longa e exigente luta, há estes breves momentos de um doce sabor a vitória, que me renovam as forças.

É esse doce sabor que, eu espero, floresça algures no reino mágico da mente do meu filho, como um antídoto precioso contra o medo, e capaz de ser invocado a qualquer momento, sempre que chega um novo desafio.

sábado, 15 de maio de 2010

O Contrato Maior

No Amor, o único contrato de verdadeiro valor é aquele que cada um de nós, livremente escolhe, escrever no seu coração. É um contrato de fidelidade que fazemos connosco próprios, de celebrar a eternidade do Amor em cada momento.

O verdadeiro casamento é um contrato íntimo e pessoal, sem prazo, que se nutre e se renova a cada dia… a cada hora… e a cada minuto… de livre, espontânea e consciente vontade.

Ninguém é de ninguém. E a grande beleza do amor é ser a celebração de uma escolha livre, a escolha de nos darmos a outra pessoa, sem nunca deixarmos de pertencer apenas a nós mesmos.

O amor é assim... como uma borboleta. Se o tentarmos guardar na nossa mão fechada, tiramos-lhe o pó mágico das asas que lhe permite voar. Tiramos-lhe o brilho e passamos a ter, bem seguro na nossa mão... um vulgar insecto.

E por isso, amamos verdadeiramente, quando sabemos acolher, apreciar e agradecer, de coração aberto, a beleza selvagem de uma borboleta pousada na nossa mão. É assim que o amor, como um milagre, pousa em nós.

E sempre que a borboleta voa, contemplamos com gratidão, o seu magnífico voo...

... porque a sua magia impregnou-nos para sempre.

domingo, 2 de maio de 2010

A importância de ser MÃE


Costumo dizer que ter sido mãe, foi o upgrade mais valioso que já fiz ao meu software pessoal, e que se actualiza constantemente. A maternidade é uma escola de gestão de exigência máxima, com cursos de longa duração, de horários intensivos diurnos e nocturnos, em que as alunas se entregam de corpo e alma, são confrontadas com os resultados todos os dias e apresentam, de modo geral, prestações extraordinárias, sem nunca receberem diploma.
Por isso, no meu currículo profissional, faço questão de indicar a minha mais importante (dupla) qualificação: Sou mãe de dois filhos.

Hoje, a marcar o "Dia da Mãe," reproduzo aqui alguns excertos da jornalista Ann Crittenden que escreveu um livro com um título tão sugestivo como este: "O Preço da Maternidade: Porque é que a profissão mais importante do mundo é ainda a menos valorizada" nomeado como um dos livros notáveis do ano de 2001, pelo New York Times.

Na economia moderna, dois terços da riqueza são fruto das experiências, criatividade e espírito empreendedor do ser humano — aquilo que é habitualmente designado de «capital humano». O que significa que os pais que educam os filhos de forma consciente e eficaz são literalmente, nas palavras da economista Shirley Burggraf, «os maiores produtores de riqueza económica». Mas esta verdadeira contribuição material não é vista como tal. Toda a adulação à maternidade ainda «flutua no ar». No chão, onde vivem as mães, a falta de respeito e de reconhecimento ainda fazem parte da experiência de qualquer mãe. O trabalho que requer a construção de um lar para uma criança e o desenvolvimento das suas capacidades é muitas vezes equiparado a «fazer nada». Daí a desdenhosa questão constantemente levantada sobre as mães que estão em casa: «O que é que elas fazem o dia inteiro?», chegando ao ponto de até os próprios filhos absorverem a mensagem cultural de que as mães não têm grande peso na sociedade.


A ocupação de mãe não só é «invisível» como também se pode tornar uma desvantagem. Educar uma criança é o trabalho mais importante do mundo, mas é impossível utilizá-lo com o intuito de enriquecer um currículo. A ideia de que o tempo gasto com uma criança é tempo perdido, está inerente ao pensamento económico tradicional. Mesmo que não estejam formalmente empregadas, as pessoas podem criar capital humano. No entanto, são acusadas de sofrerem uma deterioração da «matéria-prima». Os talentos exigidos para realizar o árduo trabalho de construir, a longo prazo, o carácter humano e inculcar nas crianças a capacidade e o desejo de aprender não têm qualquer espaço nos cálculos económicos. A teoria económica não tem nada a dizer sobre a aquisição de experiências por parte daqueles que trabalham com crianças. Ou seja, não são ninguém!


Com o início do século XXI, as mulheres podem estar a aproximar-se da igualdade, mas as mães ainda estão muito para trás. Mudar o estatuto das mães, através da obtenção do reconhecimento real do seu trabalho, é o grande passo a dar pelo movimento feminino.


Reavaliar a maternidade não vai ser nada fácil. Até as feministas se mostram muitas vezes relutantes em admitir que a vida de muitas mulheres se centra prioritariamente nos seus filhos, temendo que isto as possa levar novamente à subordinação doméstica. Daí não apostarem na valorização do trabalho das mães que se dedicam exclusivamente ao lar. Lutam por uma maior participação dos pais, mas até agora com poucos resultados. É óbvio que cuidar dos próprios filhos não é um trabalho que se faça com o intuito de receber qualquer remuneração. No entanto, não significa que uma pessoa deva ser penalizada por isso. Só pelo facto de ser uma tarefa altruísta não quer dizer que não seja difícil; é uma obrigação que consome tempo e que é atribuída a um dos sexos... o feminino, é claro. Balzac chegou a escrever: «O amor maternal torna todas as mulheres escravas».


Num mundo verdadeiramente diverso, as pessoas que se dedicam exclusivamente à educação dos filhos deveriam estar bem representadas em posições de poder. Todas as instituições deveriam questionar-se sobre se têm nos escalões mais elevados suficientes mães. E a educação directa dos filhos deveria ser vista como uma referência, em vez de ser encarada como uma desvantagem.


Vale a pena fazer uma analogia com os militares. Tal como as mães, eles prestam um serviço indispensável ao país. A sociedade sente-se em dívida para com eles, e por isso é comum os veteranos de guerra receberem diversas recompensas pelos seus serviços. Assim, não é justo exigir que a educação de um ser humano, o serviço nacional primário prestado pelas mulheres, seja considerado menos valioso. Não é justo forçar as mulheres a serem os filantropos involuntários da sociedade. Não é justo esperar que as mães façam sacrifícios que não são exigidos a nenhuma outra pessoa, ou tenham virtudes que mais ninguém possui. As virtudes e os sacrifícios, quando esperados por parte de um grupo restrito de pessoas, tornam-se a marca de uma classe inferior. Estabelecer um acordo justo para as mães, vai muito além dos salários de donas de casa, ou até mesmo dos benefícios dos veteranos. O que é necessário é o reconhecimento global — no trabalho, na família, na lei, na política social — de que alguém tem de realizar o trabalho essencial que se prende com a educação das crianças e o sustento da família, e que a recompensa desse trabalho vital não deverá ser a marginalização profissional, a perda de status ou um maior risco de pobreza.


Este reconhecimento significaria o fim da gritante contradição entre aquilo que dizemos às jovens mulheres — «sai, luta pela tua educação, torna-te independente» — e o que acontece a essas aspirações assim que se tornam mães. Destruiria o anacronismo que atormenta a vida da maioria das mães, que, apesar de trabalharem mais que qualquer pessoa na economia, continuam a ser financeiramente dependentes, como as crianças ou os adultos incapacitados.

Criar e educar uma criança em constante mudança não é uma tarefa fácil. Em nada se assemelha ao trabalho doméstico ou a fazer uma lista de compras para o supermercado. É uma tarefa que requer uma extraordinária competência.

É provável que as mães e outras pessoas que se dedicam a cuidar dos filhos e de membros da família idosos ou doentes continuem a fazê-lo, não se importando com os custos ou consequências que isso terá nas suas vidas. Afinal de contas, o amor maternal é uma das fontes renováveis do Mundo. E ninguém consegue ver o óbvio: se as habilidades humanas são fonte principal do progresso económico, como defendem muitos economistas, e se essas habilidades são criadas nos primeiros anos de vida, então as mães são os maiores produtores da economia. Elas têm, literalmente, a profissão mais importante do Mundo.


Condensado de The Price of Motherhood: Why the Most Important Job in the World is Still the Least Valued, by Ann Crittenden. © 2001 by Ann Crittenden — Metropolitan Books. Adaptado por Filipa Lopes.

Imagem: Pintura de Katie m. Berggren