segunda-feira, 28 de junho de 2010

Parabéns Doulas de Portugal!



Foi há 5 anos que demos à luz esta ideia, este desejo, esta vontade, de ver um país devolver o parto às mulheres, de ver um país respeitar as suas mulheres como seres humanos inteiros, físicos, mentais, emocionais, espirituais, sexuais. Mulheres inteligentes, livres, informadas, responsáveis e donas de si próprias.

São cinco anos a testemunhar o poder transformador e libertador de um parto respeitado, acarinhado, de um parto bem vivido.
O poder de mudar uma mulher, de a tornar mais confiante em si, no seu corpo.
O poder de mudar o mundo.

Cinco anos a sentir e perpetuar este elo de AMOR!
Cinco anos ao lado das mães, a passar a palavra, a estender a mão, a alargar o círculo, a unir as nossas vozes, que dizem:
O Parto é nosso e é belo!

Foi há 5 anos mas parece que foi há uma geração atrás... em que Portugal estava às escuras... os partos eram objecto de um mesmo protocolo cego às necessidades e desejos de cada mulher, desejos que muitas vezes nem eram manifestados, não se sabia que podia ser diferente... Parto na água, parto em casa, parto de cócoras, eram acontecimentos exóticos de qualquer outra parte do mundo... havia medo, havia silêncio, havia o desconhecido. A palavra "doula" era (literalmente) grego para as portuguesas!... Hoje é falada nos meios de comunicação social com frequência.
Hoje muita coisa mudou e muita mais ainda vai mudar.

Os desafios pela frente são imensos. Estamos cá para continuar a lutar, questionar, aprender, reflectir, evoluir, juntas, com todos os parceiros deste cenário que é a humanização do parto em Portugal. Com voz que se faz ouvir.
Hoje as mulheres portuguesas que reclamam conscientemente para si o poder dos seus partos não têm ainda um caminho fácil, mas não estão sozinhas. E têm opções, porque as conhecem!

E só por isso, já valeu a pena!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Da dor e da glória de ser Mulher inteira



Dizia uma amiga minha, também doula, numa partilha da sua dor, num processo de separação, há dias:
Realmente só podíamos ser DOULAS!
Somos ainda mal-entendidas, por muita gente! Enquanto Doulas e como Mulheres!


Tão bem conheço essa dor. A dor de ser mulher inteira, consciente.
Como conheço também, indissociável da dor, esta glória... que nasce da coragem de sermos fieis a nós próprias, de não nos contentarmos com o caminho mais fácil, de expandirmos continuamente a nossa consciência, de escancararmos o coração à vida, sem medo. Mesmo que isso signifique decepcionar alguém, para não fugir à nossa verdade.

E é verdade o que dizia esta minha minha amiga.
Antes de ser um trabalho, ser doula é uma atitude, um Sentir, uma forma de estar na vida.

Move-nos o poder de sermos autênticas, de nos escutarmos atentamente e respeitarmos profundamente, de não nos contentarmos com a vida que alguém quiser traçar para nós, mas sim em desenharmos a nossa própria vida, e assim inspirar também as mulheres que nos rodeiam, a fazer o mesmo.

Partos poderosos libertam a mulher autêntica dentro de nós!
Uma mulher que pariu de forma poderosa e livre nunca poderá contentar-se com o confinamento da sua alma, seja em que circunstâncias for. Não há liberdade que se conquiste sem dor. E não há vida que seja VIDA, sem liberdade.
Mulheres, nós temos essa força!

Uma separação conjugal é um dos momentos mais difíceis da vida, em especial quando se tem filhos em comum. E os momentos de maior sofrimento, encerram também o maior potencial de crescimento.
Tudo o que parecia certo ontem, hoje se desfaz. Assistimos à transfiguração de pessoas que julgávamos conhecer... companheiros de uma vida, que passam tantas vezes a personagens de longas metragens de terror. Vemos espelhado no outro a mesma dor, o mesmo medo, a mesma insegurança, com tempos diferentes de auto-descoberta, os conflitos, o tanto que ainda temos por crescer. Aprendemos, no mais desafiador dos terrenos, o significado da palavra Compaixão. E aprendemos também, no duro, a distinguir o que é realmente importante do que é secundário.
A isto chama-se afinal, aprender a ser feliz.

Uma separação é muitas vezes a única forma de nos reunirmos connosco próprias. De voltarmos a ser Mulheres inteiras.

Aconteça o que acontecer, temos sempre que fazer as nossas escolhas e aceitar as escolhas dos outros, sabendo que somos responsáveis apenas pelas nossas. E sabendo que se não escolhermos, alguém escolhe por nós. E pode não ser o que queremos.

É preciso coragem para sermos donas das nossas vidas. É duro. Mas nunca será mais duro do que viver uma mentira. E por muito que a coisa se torne difícil, é preferível que os nossos obstáculos estejam bem identificados à nossa frente do que bem disfarçados nas nossas vidas, tantas vezes, apenas aparentemente, arrumadinhas.

Podemos sentir na pele a incompreensão, a indiferença, o julgamento... e até a crueldade de pessoas que nos eram próximas, a quem chamámos "amigas". Pessoas com essas vidas aparentemente arrumadinhas, a quem talvez faça confusão que alguns, ao lado, deitem abaixo a sua casa... não vá a delas abalar por "contágio". Mais uma vez, cada um fica com as suas escolhas.
Mas recebemos também a prova do estrondoso amor dos VERDADEIROS amigos, e conhecemos o significado profundo da palavra família. Esta revelação não tem preço.

Estou grata à família maravilhosa que tenho, uns pais que me apoiam incondicionalmente, porque me amam. E amar é confiar.

Estou grata aos amigos e amigas extraordinários que tenho. Tenho o privilégio de estar num circulo de mulheres fantásticas, a minha família alargada, que foram minhas doulas, que me deram a mão enquanto atravessava canais de escuridão.
Sim, somos doulas umas para as outras, companheiras na fantástica viagem da vida.

E estou grata a esta vida.
Estou grata por ter mergulhado nesta dor, atravessado este oceano, este deserto, esta selva... ter sentido tudo isto.
A alternativa seria não sentir, não viver.

Não me recordo bem da mulher que era ontem. Vejo uma figura desvanecida, sem brilho, à espera de algo que a salvasse. Até perceber que quem me pode salvar sou eu. Que bom que a voz do meu coração um dia foi mais forte do que todo o ruído à minha volta, e encheu tudo de cor intensa e profunda. Descobri essa luz, e ela nasceu de dentro de mim.
Cada dia me sinto mais sensível e mais forte. Paradoxal? É a mais pura das verdades.

Houve dias em que o mundo parecia desmoronar e tudo em mim apelava: olhem para mim, ajudem-me, não sei se sobrevivo a mais um dia disto! E sobrevivia, claro! Fui eu que escolhi! Nós só escolhemos aquilo que aguentamos! O nosso corpo e a nossa alma estão desenhados para isso!

Tantas mulheres à minha volta, cada vez mais... têm passado pelo mesmo. Olho à minha volta e encontro-vos. Mulheres com voz e com brilho, estamos por todo o lado e não mais estamos sozinhas.
Os tempos mudam. São tempo de descoberta. Tempos de coragem, de inquietação, de procura, de libertação.

E claro, é normal duvidarmos, perdermos as forças, pedirmos ajuda. É normal pensarmos.. "e Se"? Rimos e choramos juntas. E juntas, continuamos.

Acredito que o Ser sábio dentro de nós, aquele que faz a escolha, continua a saber qual é o caminho, mesmo que às vezes a sua voz pareça abafada pelas nossas lágrimas.
Nas mesmas lágrimas em que, depois de cada tempestade, brilha sempre um arco-íris.

Sim, minha amiga, só podíamos ser doulas!