sábado, 8 de outubro de 2011

Idade



Tenho trinta e oito anos de uma coisa chamada idade, e três cabelos brancos.
Descobri-os há uns meses atrás... primeiro só um, brilhando como prata... uns dias depois outro.. e outro. Um, dois... e três.
Desde então, de vez em quando, dou por mim a procurá-los ao espelho, nem sei bem porquê, mas gosto de os ver, gosto de os encontrar ali, sempre no mesmo sítio, teimosa e orgulhosamente prateados.
E gosto ainda mais, quando nessa busca, esses olhos que procuram... se encontram a si próprios, e eis que continuam a ter as mesmas cores... castanhos, verdes, dourados, brilhantes, perscrutantes, curiosos, ávidos, espantados, encantados, no centro de tudo... e sempre, sem idade.

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I have thirty eight years of a thing called age, and three white hairs.
I found them a few months ago... at first only one, silver shining... a couple days later, another and another. One, two... and three.
Since then, I find myself looking for them at the mirror, don't really know why, but I like to see them, I like to find them there, always in the same place, stubbornly, proudly silver.
And I like it even more when, in that search, those eyes that seek, find themselves, and there they are, still showing the same colors as ever... brown, green, golden, shimmering, investigating, curious, avid, astonished, enchanted, in the center of it all... and always... ageless.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Pulsar



Um livro também tem uma pulsação.
Abres e começas a ler e sabes... se bate ao teu ritmo ou não.
Não interessa muito a história que te conta... há tantas histórias que nos podem contar.
Nem tão pouco importa como começa, nem como termina. Importa como, linha a linha, te envolve, respira e pulsa contigo e como se misturam, tu e ele, num só calor. E quando paras por momentos... podes descansar ou bebes um café, olhas pela janela ou talvez até converses com alguém, mas tudo ainda tem o seu sabor... aquele movimento ainda pulsa em ti e vibras na memória daquela frequência e aquele calor permanece.
É como dançar com um parceiro que não conheces ainda, mas quando te segura, sentes... se se move contigo sem esforço e se fluis com ele e és leve e simplesmente sorris, porque faz todo o sentido, mesmo que não saibas explicar porquê. Nem é preciso.
Sem razões, só um pulsar... e é assim que me apaixono.
E é assim que escolho um livro, ou que ele me escolhe a mim.


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A book has a heartbeat too.
You open it and you start reading it, and you know... if it beats along with your heart or not.
It is not about the story it tells you... there are so many stories you can be told.
It is not about how it starts, or how it ends either. It is about how, line by line, it surrounds you, breathes and beats along with you, and how the two of you get entangled in the same warmth. And when you stop for a moment, as you rest, you may drink a coffee, look through the window or even may talk to someone, still everything tastes like it... that movement still pulses in you and you vibrate in the memory of that frequency and that warmth remains.
It is like dancing with a partner you don't know yet... but when he holds you, you feel... if he moves with you effortlessly and you flow together and you are light and you simply smile, because it just makes sense, even if you cannot explain why. There is no need to explain why.
No reasons, just a heartbeat... and that is how I fall in love.
And that is how I choose a book, or a book chooses me.

terça-feira, 15 de março de 2011

Descobrir o céu



Que missão de vida pode cada ser humano ter, que não a de descobrir aquilo que ama... e trabalhar na sua paixão - Ser essa paixão.

Devemos à Vida o exercício da nossa paixão.

As profissões fazem, por vezes, às paixões, aquilo que as religiões fazem à espiritualidade. Confundem, apropriam-se, aprisionam, distorcem, desvirtuam.

São uma manta de retalhos bem costurados que nunca poderá cobrir o céu.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Encurtar distâncias...


(imagem do filme "Going The Distance")

Parece ser um lugar comum, aqui e ali, ouvir expressões de um certo preconceito fácil em relação a essa coisa chamada 'internet'... uma desconfiança latente e pronta para com esse misterioso monstro electrónico em cujo leito invisível agora navegamos, submergimos, flutuamos, e até engolimos uns pirolitos... Enfim, um prático bode expiatório para uma certa crise das relações humanas... hummm... Mas que ameaça é esta?

Eu acredito que se projectamos medo e desconfiança é isso que recebemos na vida, seja através da internet, seja no café ou no jardim público. A internet não é boa nem é má por si só. É tão boa ou tão má quanto as intenções de quem a usa. É sim, uma ferramenta poderosa ao nosso dispor e que não nos devolve outra coisa que não o reflexo de quem somos e como nos expressamos.

O desafio é, a meu ver, saber usar novos recursos, sem que pelo caminho se perca a ética e o critério. Ética pessoal. Sim, isso. A questão é se cada um sabe qual é a sua? Quem sou eu e como me relaciono com os outros? Onde coloco os limites àquilo que partilho em cada momento, em cada lugar, com quem e porquê? Mas isso é, e sempre foi assim, na nossa vida em sociedade, em comunidade, na intimidade, em diferentes contextos. Com novas ferramentas há também novas maneiras de aprender as mesmas lições... assim haja sempre seres humanos que querem aprender.
É uma cultura de comunicação em transformação. E só quando aprendemos a comunicar, regressamos a nós próprios, uma... e outra... e outra vez... e crescemos.
É um mundo novo... e não é o mundo sempre novo?

A internet altera os nossos conceitos de tempo e de espaço, acelera processos e aproxima-nos uns dos outros, e aí reside um enorme potencial, assim o saibamos usar da melhor maneira. Permite-nos também estarmos mais próximos, desde que não a usemos, de forma inconsciente, para substituir um contacto presencial que é alimentado por todos os sentidos, a totalidade da experiência humana, no espaço e no tempo que lhe precisamos conceder.

A nossa carência na relação humana, nos dias de hoje, não resulta do uso da internet, mas sim da dificuldade em sabermos comunicar de forma inteira, autêntica, efectiva, seja por que meio for. Comunicar honestamente, com o coração, saber confiar, saber escutar, querer realmente ouvir o outro. Usar o nosso tempo para estarmos verdadeiramente presentes, seja a um metro do outro, olhos nos olhos, numa mesa de café, seja com um oceano, ou um continente, pelo meio.
Porque quando assim é, como se lê na capa de um velho livro de Richard Bach, "não há longe nem distância".

Que comunicação aprendem as nossas crianças, em casa com a família, ou na escola?
Que tempo há para a escuta autêntica no seio da família?
Quem escuta verdadeiramente um professor na sala de aula? Quem escuta verdadeiramente uma criança?
E quem escuta a criança dentro de si?

Porque a comunicação não começa mais longe... começa aqui mesmo, neste lugar pequeno e imenso, dentro de nós próprios. Quanto tempo dedicamos a nos escutarmos realmente, a nutrirmos verdadeira intimidade com o Ser dentro de nós, que observa o movimento dos dias, os passos dos nossos pés, a tagarelice da nossa mente?
Que coisas dizemos a nós próprios todos os dias, com ou sem palavras... Com que mensagem acordamos? Com que energia?
Das fundações que construímos dentro de nós próprios, depende a qualidade das pontes que construímos para encontrar os outros.

As distâncias que mais nos ameaçam são tudo menos geográficas. São aquelas que permitirmos continuarem a existir todos os dias, entre almas sequiosas que vagueiam lado a lado, num deserto civilizacional hiperactivo e com déficit de atenção.