sábado, 29 de janeiro de 2011

Encurtar distâncias...


(imagem do filme "Going The Distance")

Parece ser um lugar comum, aqui e ali, ouvir expressões de um certo preconceito fácil em relação a essa coisa chamada 'internet'... uma desconfiança latente e pronta para com esse misterioso monstro electrónico em cujo leito invisível agora navegamos, submergimos, flutuamos, e até engolimos uns pirolitos... Enfim, um prático bode expiatório para uma certa crise das relações humanas... hummm... Mas que ameaça é esta?

Eu acredito que se projectamos medo e desconfiança é isso que recebemos na vida, seja através da internet, seja no café ou no jardim público. A internet não é boa nem é má por si só. É tão boa ou tão má quanto as intenções de quem a usa. É sim, uma ferramenta poderosa ao nosso dispor e que não nos devolve outra coisa que não o reflexo de quem somos e como nos expressamos.

O desafio é, a meu ver, saber usar novos recursos, sem que pelo caminho se perca a ética e o critério. Ética pessoal. Sim, isso. A questão é se cada um sabe qual é a sua? Quem sou eu e como me relaciono com os outros? Onde coloco os limites àquilo que partilho em cada momento, em cada lugar, com quem e porquê? Mas isso é, e sempre foi assim, na nossa vida em sociedade, em comunidade, na intimidade, em diferentes contextos. Com novas ferramentas há também novas maneiras de aprender as mesmas lições... assim haja sempre seres humanos que querem aprender.
É uma cultura de comunicação em transformação. E só quando aprendemos a comunicar, regressamos a nós próprios, uma... e outra... e outra vez... e crescemos.
É um mundo novo... e não é o mundo sempre novo?

A internet altera os nossos conceitos de tempo e de espaço, acelera processos e aproxima-nos uns dos outros, e aí reside um enorme potencial, assim o saibamos usar da melhor maneira. Permite-nos também estarmos mais próximos, desde que não a usemos, de forma inconsciente, para substituir um contacto presencial que é alimentado por todos os sentidos, a totalidade da experiência humana, no espaço e no tempo que lhe precisamos conceder.

A nossa carência na relação humana, nos dias de hoje, não resulta do uso da internet, mas sim da dificuldade em sabermos comunicar de forma inteira, autêntica, efectiva, seja por que meio for. Comunicar honestamente, com o coração, saber confiar, saber escutar, querer realmente ouvir o outro. Usar o nosso tempo para estarmos verdadeiramente presentes, seja a um metro do outro, olhos nos olhos, numa mesa de café, seja com um oceano, ou um continente, pelo meio.
Porque quando assim é, como se lê na capa de um velho livro de Richard Bach, "não há longe nem distância".

Que comunicação aprendem as nossas crianças, em casa com a família, ou na escola?
Que tempo há para a escuta autêntica no seio da família?
Quem escuta verdadeiramente um professor na sala de aula? Quem escuta verdadeiramente uma criança?
E quem escuta a criança dentro de si?

Porque a comunicação não começa mais longe... começa aqui mesmo, neste lugar pequeno e imenso, dentro de nós próprios. Quanto tempo dedicamos a nos escutarmos realmente, a nutrirmos verdadeira intimidade com o Ser dentro de nós, que observa o movimento dos dias, os passos dos nossos pés, a tagarelice da nossa mente?
Que coisas dizemos a nós próprios todos os dias, com ou sem palavras... Com que mensagem acordamos? Com que energia?
Das fundações que construímos dentro de nós próprios, depende a qualidade das pontes que construímos para encontrar os outros.

As distâncias que mais nos ameaçam são tudo menos geográficas. São aquelas que permitirmos continuarem a existir todos os dias, entre almas sequiosas que vagueiam lado a lado, num deserto civilizacional hiperactivo e com déficit de atenção.

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