segunda-feira, 29 de julho de 2013

Aprender a Voar



Depois dos clássicos "Os Bichos" e o "Romance da Raposa"... "Fernão Capelo Gaivota" foi, se bem me recordo, o primeiro livro para gente crescida que li... quando aos treze, catorze anos, passada a fase das aventuras dos Cinco, dos Sete, da Carlota, da Patrícia, e da ficção científica juvenil... a minha cabeça se ergueu em voos mais altos... pelas prateleiras cheias de livros dos meus pais... Este pequeno volume de capa azul escura e cheio de fotografias a preto e branco de uma gaivota cortando os céus em múltiplas danças e manobras e a sua história deliciosamente contada por Richard Bach... foi a primeira de incontáveis leituras que se seguiram, dentro de um género que hoje poderemos chamar de literatura "espiritual" ou de "desenvolvimento pessoal" mas que é tão simplesmente a celebração da profunda, mágica e intangível experiência de nos sentirmos perigosamente vivos, únicos e irrepetíveis, e maravilhosamente sós, entre a multidão barulhenta.
Se não souber mais nada sobre mim, sei pelo menos o que me chama a cada momento, o que me faz sentir viva. E é por aí que vou. Já flutuei nas nuvens, já deslizei nas correntes, já fiz loopings assustadores, já me estatelei no chão. Já parti e voltei a partir o coração. De tão quebrado e reconstruído, já está enorme e acolhedor, sempre aberto, sem medo. Até à próxima viagem.
Só saltando do precipício, podemos saber do que somos capazes. E se partirmos desta vida que nos foi dada, sem sabermos do que somos capazes, então, o que viemos cá fazer?
Ainda e sempre, estou a aprender a voar. E a adorar.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Adeus



Deixa-me, ainda, adivinhar
no teu rosto, um esboço meu
na expressão, no movimento
do meu corpo, um complemento.
Deixa-me, ainda, descobrir
no teu líquido olhar
o meu pranto a ondular
e na tua voz, o meu murmurar.
Deixa-me, ainda, procurar
na brevidade de um instante
no teu, o meu semblante
e em tudo em ti, me rever
se ainda o tempo não raptou
do teu, o meu ser.
Então, depois, irás...
sem nunca olhar para trás
sob os teus passos, os meus
lentos, leves, pedaços
do meu caminhar no teu
a atrasar o adeus.

sexta-feira, 1 de março de 2013

É o fim.


É o fim, é o fim, é o fim.
E tudo começa assim,
sem menos, sem mais,
sem uis, nem ais.
É o que tem que ser.
Nada mais a fazer,
hesitar ou temer.
Sem esperar ou esperança,
sente o medo e avança.
Agora aqui bem quieta,
está a linha da meta.
Surge debaixo do chão,
das tripas, do coração.
Respira, pausa... ação!

sábado, 5 de janeiro de 2013

A ganhar!


Nisto de ganhar ou perder... e do nosso estado de alma... recordo-me sempre dos meus tempos de apaixonada atleta de competição de voleibol e de um fenómeno que sempre me intrigou… A minha equipa perdia muitos jogos… apesar de tecnicamente não sermos inferiores ao adversário… muitas vezes estávamos a ganhar com grande vantagem, e a equipa adversária ganhava a posse de bola… fazia um ponto… vá lá, vamos virar isto… fazia dois… nós ainda a ganhar bem, mas a confiança começava a abalar-se… mais um ponto e começamos a ver o filme do jogo a escorregar-nos das mãos… não queríamos pensar assim, mas era mais forte que nós, 6 jogadoras preocupadas, mais umas no banco... todas a pensar no mesmo, mesmo que as nossas palavras gritadas em campo fossem de puxar pela vitória, a energia que nos contagiava era de derrota, mesmo o resultado ainda estando a nosso favor… Na verdade, se pararmos o filme, congelarmos o tempo e observarmos o resultado… estamos a ganhar… então porque deixámos de acreditar? Porque a nossa mente não consegue parar no presente… compara com o passado, tenta prever o futuro… mas não pára no presente… está sempre a fazer histórias, a ver filmes… e tende a focar-se mais no pouco que perdeu do que no tanto que ainda tem.

E há quem passe uma vida inteira sem conseguir perceber isto… e escapar desta armadilha, desta ilusão.

Na verdade, estamos a ganhar. Se estamos vivos, estamos a ganhar. E se estamos vivos, temos saúde, familiares e amigos que amamos, coisas que gostamos de fazer, não nos falta o que comer ou vestir… então... estamos a ganhar com uma grande vantagem!… Porque não conseguimos parar o filme e apreciar este momento, aqui e agora, com gratidão?

Passamos muitos anos a estudar na escola, na universidade, a treinar no ginásio, para sermos fortes, inteligentes, bonitos... mas raramente aprendemos a habilidade mais importante... treinar a mente, para sermos simplesmente felizes! Porque é a forma como a nossa mente funciona que determina a qualidade de cada instante das nossas vidas.

Vamos aprendendo, uns mais do que outros, nas entrelinhas da vida, de todas as experiências, sobretudo as  que nos provocam mais dor. Mas é uma aprendizagem quase casual... em função de um certo percurso de vida... e feita tantas vezes em contra-corrente... tantas vezes em solidão e silêncio. Há culturas onde essa aprendizagem é muito mais valorizada e proporcionada de forma consciente, e natural desde cedo na vida... culturas onde se pratica e ensina a meditação, o cultivo da calma interior, um sentido contemplativo da vida. Já na sociedade moderna materialista em que a maioria de nós vive... as experiências que abundam, incluindo a grande generalidade das experiências 'educativas' formais, são sobretudo distractoras dessa aprendizagem preciosa. Não são orientadas para desenvolver verdadeiro poder pessoal. Nesta cultura a maioria das pessoas é facilmente arrastada por tudo o que se passa no exterior de si mesmas. São emocionalmente muito vulneráveis à variação das condições exteriores. Eu vejo isso nas pessoas quando as cumprimento e desejo um bom ano, as respostas são invariavelmente trejeitos de desânimo, focadas na crise, no ano terrível que aí vem, numa resignação relativamente a algo que não podem controlar, que as faz sentir impotentes. E por isso acho importante lembrar que há um território magnífico e poderoso, que só nós controlamos, e que pode fazer toda a diferença, e que é a nossa mente. Quando mudo a minha mente, mudo o meu mundo. E não será assim também que se muda um país?